Serra Fina sem explicações

“Qual a graça de subir montanhas? Você anda, se cansa, chega lá em cima e….???? Desce… qual a emoção nisso?”

Esse questionamento já ouvi inúmeras vezes de muitos amigos, sempre que troco um final de semana no conforto da minha casa, ou com uma festinha em um bar ou na casa de alguém as pessoas ficam sem me entender e soltam essas pérolas. Brincam comigo que se ao menos tivesse um bar lá no alto da montanha valeria o esforço.

Já tentei explicar a sensação que sinto, porém não há palavras que expressem os sentimentos de uma montanhista ao chegar no cume e ver o sol, as nuvens e a imensidão do mundo lá de cima. Prazer? Certamente essa palavra descreve parte do que sinto. Emoção? Também consegue explicar parte desse mix de sensações. Adrenalina? Sim, há a adrenalina, mas é tão relaxante sentir o vento tocar no rosto lá do alto onde a maioria não quer chegar, que só a adrenalina não justifica o desgaste extenuante que é ascender uma montanha (ou várias delas).  Superação? Sim, me sinto superando obstáculos a cada passo que dou rumo ao topo, ainda mais por pensar que há 5 anos atrás quase perdi meu pé esquerdo em um acidente de moto.

Poderia listar mais uma dúzia de palavras aqui, mas elas seriam rasas e não tão descritivas para explicar a meus amigos e a você leitor, que considero um grande amigo só por me dar uns minutos de atenção, a sensação que um montanhista sente estando em conexão com aquelas que ele mais ama: As Montanhas.

Amigos montanhistas no cume da Pedra da Mina

No último feriado de Corpus Christi junto com outros amigos montanhistas – Rafael Campos também de São Paulo, Juliana Garcia, Samuel Vasconcelos e Lorena Mariani todos de Belo Horizonte – encarei um desafio grande, considerada por muitos como a mais dura travessia de montanhas no Brasil a Serra Fina, uma cadeia montanhosa localizada na Serra da Mantiqueira, que situa-se na divisa entre Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro e que abriga o quarto ponto mais alto do Brasil e ponto culminante do estado de São Paulo, a Pedra da Mina (2798m), com acesso principal pela cidade de Passa Quatro/MG.

Característica da Serra Fina é o trekking pelas cristas

A ideia original da travessia era completar o  trajeto inteiro em 14 horas, apenas com mochila de ataque, sem acampamentos e grandes volumes de equipamentos, contrapondo a travessia clássica, feita em 4 dias e 3 noites, ao logo de seus quase 30km de extensão, mas uma coisa que aprendi ao longo de todos esses anos “brincando” nas montanhas é que a ideia original nunca é a definitiva.

O ponto de encontro foi na quinta-feira (04/06/2015) no Município mineiro de Itanhandu (12km de Passa Quatro), onde nos hospedamos no abrigo Tropical de Altitude (mais informações no apêndice técnico), lugar confortável e point de vários montanhistas que se aventuram na Serra Fina, Parque Nacional de Itatiaia e no complexo do Pico do Marins.

Agendamos para sair do abrigo as 3 da manhã da sexta-feira (05/06/2015) e iniciar a trilha as 4 da manhã, o transporte foi feito por uma guia da região (contato dela e de outros que fazem o transporte se consegue fácil no Tropical de Altitude), porém devido há alguns imprevistos atrasamos um pouco nossa saída, sendo que a Lorena abortou ali a trilha por dores nas costas.

Sol nascendo na subida do Capim Amarelo

O ponto inicial da travessia é a Toca do Lobo, distante cerca de 10km da cidade de Passa Quatro por estrada de terra, onde o nosso transporte nos deixou. Iniciamos a jornada as 4:40 da manhã ainda sob a luz da lua cheia, o trecho inicial foi tranquilo e começamos a subida pelas cristas das montanhas até o Capim Amarelo (2.491m) já com os primeiros raios de sol e a uma temperatura de 5ºC , atingindo o cume as 7:30 da manhã, onde nos hidratamos e alimentamos e encontramos uma amiga querida por acaso, a montanhista de Teresópolis Monique Zajdenwerg. Esse trecho inicial corresponde ao primeiro dia da travessia clássica, onde os montanhistas que optam por fazê-la dessa forma acampam.

Subida do Capim Amarelo

Encontro inusitado no alto do Capim Amarelo

Após um breve descanso retomamos a trilha, com a descida do Capim Amarelo em direção à Pedra da Mina, correspondente ao segundo dia de caminhada da travessia clássica. Uma palavra descreve a descida do Capim Amarelo: TENEBROSA. A descida é extremamente ingrime, com muito barro e pedras soltas, situação ocasionada pela erosão devido ao grande número de pessoas que percorrem a trilha. Nesse trecho comecei a enfrentar alguns problemas ocasionados pela escolha do calçado para a trilha, optei por ir com um tênis de trilha ao invés da bota de trekking e me dei mal… Na descida cai mais de 10 vezes, pois o calçado não dava aderência na lama e nas pedras molhadas. Para evitar cair mais vezes comecei a fazer um grande esforço o que ocasionou um desgaste muscular e consequentemente câimbras. Esse trecho foi sofrido para mim, meu ritmo caiu muito e me distanciei dos meus amigos que iam muito mais rápido.

Segundo trecho percorrido: Capim Amarelo x Pedra da Mina

A Serra Fina tem o relevo altamente acidentado

O grande fluxo de montanhistas na trilha me atrapalhou também pois quebrava meu ritmo já lento. O horário limite para atingirmos a Pedra da Mina era 11:30 da manhã e devido ao meu ritmo lento percebi que não seria possível atingir a meta. Me confundi na trilha na região do Maracanã e me distanciei mais de meus amigos. Cheguei no primeiro ponto de água na base da Pedra da Mina por volta de 11h, descansei, hidratei, belisquei, abasteci e alonguei bastante as pernas para tentar minimizar as câimbras e segui em frente já iniciando a subida.

Paisagens marcantes no segundo trecho da travessia

Cenas como essa que não consigo explicar

Pouco após o primeiro ponto de água há um pequeno riacho onde é possível reabastecer também, meus amigos ali esperavam e em consenso decidimos abortar a travessia completa e terminá-la pela rota de fuga do Paiolinho (que é um bairro de Passa Quatro), caminho muito utilizado por aqueles que somente vão para a ascensão da Pedra da Mina. Porém antes de abortarmos para o Paiolinho  ainda tínhamos que terminar a subida do ponto culminante da travessia, uma subida cansativa, com um grande ganho de elevação, mas com uma vista recompensadora. Atingimos o cume da Pedra da Mina em torno das 14 horas, apesar de frustrado por não ter acertado a meta do horário e não ter mais tempo para completar a travessia inteira chegar ao ponto mais alto do estado de São Paulo e ao quarto lugar do Brasil foi demais. O frio e o vento castigava mas a alegria superava o frio, as dores nas pernas e a frustração. Ficamos até as 15 horas ali em cima, assinamos o livro de cume, comemos e tiramos algumas fotos.

Trecho final da subida da Pedra da Mina

Vista do cume da Pedra da Mina

O caminho clássico nos levaria em direção ao vale do Ruah ao leste, seguindo até o Pico dos 3 Estados (2656m) e terminando a travessia no Sitio do Pierre,  mas nosso caminho era ao norte pelo Paiolinho, uma descida casca grossa pela face da Pedra da Mina que nos tomou umas 5 horas de caminhada, indo por outras cristas até a descida carinhosamente chamada de “Deus me livre”, o sol se pôs depois das 17h30 e caminhamos com auxílio de lanternas por boa parte do trecho final, atingimos a fazenda Serra Fina, ponto final dessa meia travessia pouco antes das 20, onde nosso resgate nos esperava para levarmos de volta ao abrigo.

Descida para o Paiolinho

Encosta norte da Pedra da Mina

Percorremos 26km ao total, elevação de mais de 2.000 metros, ao longo de 15 horas e 40 minutos, certamente não foi o que esperava, pois o plano era completar a travessia toda, mas caminhar em um dos cenários mais bonitos do Brasil em companhia de ótimos amigos compensou todo o esforço e dores sentidas.

Sol se pondo na descida do Paiolinho

Não há como explicar para quem não estava ali conosco o que foi aquela travessia e se tiver que explicar dificilmente alguém entenderá. Esse tipo de sensação só sente quem está ali, dando um passo atrás do outro, ganhando cada metro de elevação, sentindo o vento frio das montanhas cortando o rosto e se deslumbrando com um cenário que a maioria das pessoas nunca viu e nunca verá. Amo ser montanhista e as adversidades que esta atividade proporciona tornam a aventura cada vez mais emocionante e que venha o próximo perrengue, pois já sinto falta do ar lá de cima.

Espetáculo final no "Deus me Livre"

Apêndice Técnico Serra Fina

Trilha

  • Dificuldade: Alta
  • Elevação: +2000 metros
  • Orientação: Trilha demarcada com totens de pedra e fitas. GPS com tracklog ajuda muito a navegação
  • Tempo de Trilha: 14h 50min
  • Distância Percorrida: 26km
  • Ponto de água: Logo após o início da trilha e pouco antes da subida da Pedra da Mina
Logística
  • Cidade de Partida: Itanhandu/MG
  • Distâncias: 260km de São Paulo, 430 de Belo Horizonte e 250km do Rio de Janeiro.
  • Hospedagem: Abrigo Tropical de Altitude – cama em quarto compartilhado R$ 30,00, com chuveiro e sem café da manhã.
  • Resgate: Acertado com guia local, contato direto com o abrigo – R$ 50,00 cada trecho com carro próprio ou R$ 180,00 com carro do guia.

Equipamento básico

  • Mochila de ataque 20l
  • Bolsa de Hidratação 2l
  • Garrafa de água
  • Bastões de Caminhada
  • Lanterna de Cabeça
  • Anorak
  • Calça de trekking
  • Casaco de Fleece
  • GPS
  • Tênis para trekking (aliás não utilizei um tênis confiável e adequado, utilizei um mizuno wave kazam, bom para correr em estradas de terra batidas, mas péssimo em trilhas com barro e pedras, cai várias vezes e não o utilizo mais dessa forma,  se tivesse utilizado uma bota de trekking ou um tênis mais confiável e com melhor aderência  certamente teria completado o percurso)
  • Óculos de sol
  • Protetor solar (ok esqueci o meu em casa e me arrependi, não faça o mesmo)
  • Bandana/gorro
  • Luvas
  • Celular (importante para chamar o resgate no fim da travessia, há sinal em muitos pontos da trilha)

Alimentação e Hidratação

  • 6 unidades de gel energético
  • 4 barras de proteína
  • Maltodextrina
  • Isotônico em Pastilha
  • Banana passa
  • Barras de cereal
  • Chocolate
  • Sanduíches de presunto e queijo
  • Água – iniciei a trilha com 3 litros, 2 na bolsa de hidratação e 1/2 litro em cada garrafa, uma com isotônico e outra com maltodextrina.

About mochilaecapacete

Mochila & Capacete é o blog pessoal do montanhista, motociclista e mochileiro Marcos Paulo L. Ferreira.
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