Missão dada é La Misión cumprida!

“The point of the journey
Is not to arrive
Anything can happen”

Rush – Prime Over

Tudo começou em 2012, com uma corridinha semanal no Parque do Ibirapuera, me lembro bem que não conseguia correr por 3 minutos, cansava, minhas pernas doíam e ficava uma semana, até mais sem tentar correr novamente. Naquele momento não sabia, mas estava adquirindo um vício: Correr.

Já falei no post anterior como foi minha evolução nas corridas e não quero ser repetitivo aqui, mas uma coisa sempre ficou na minha cabeça ao participar de provas, que o meu maior adversário sou eu mesmo.

Chegar nunca foi o importante, mas estar ali é emocionante, independentemente de tempo, performance ou premiação, vencer os meus próprios limites e ver do que sou capaz é o que me motiva e me dá prazer, e o ápice desse mix de sentimentos veio a tona durante o La Misión Brasil, realizado no dia 20 de junho de 2015.

La Misión Brasil

Como expliquei semana passada a prova realizada na Serra Fina em Passa Quatro/MG é uma das mais duras corridas de montanha do Brasil e demanda um ótimo preparo físico e um excelente psicológico.

Quando me inscrevi para a prova não tinha certeza se conseguiria completá-la, afinal apesar de ser um montanhista com uma certa experiência e longas travessias computadas, sou um corredor medíocre que nunca correu uma prova maior que 10km.

Bem me preparei da melhor forma que consegui e fui ver o que me esperava nas montanhas da Serra Fina.

Cheguei a Passa Quatro/Mg na sexta-feira (19.06.15) e me hospedei no hostel da Harpia Adventure onde a grande maioria dos hóspedes eram competidores do La Misión. Encontrei meus amigos Juliana e o Júnior, nos estabelecemos e fomos buscar o kit da corrida e jantar. Voltamos para o hostel e dormimos cedo.

As 6 da manhã já estava de pé, a ansiedade era grande, em 3 horas seria dada a largada, o café da manhã reuniu muitos competidores e cada um compartilhando sua experiência em corridas anteriores de endurance, maratonas, provas de montanha, entre outras e eu me sentindo um peixe fora do ninho, por nunca ter corrido mais de 10km. Competidores de todas as idades inspiravam uns ao outros, sendo que a inspiração maior veio da sra. Tomiko uma ultramaratonista que no auge de seus 65 anos iria disputar os 80km do Short Misión.

Café da manhã com os corredores

Com a mochila arrumada e adrenalina a mil fomos para o ponto de largada onde teria um breve briefing da prova antes da largada às 9 horas da manhã.  O centro de Passa Quatro estava tomado por corredores vestindo laranja (short misión) e amarelo (half misión), todos cheios de adrenalina e ansiedade.

Aguardando o briefing e a largada

Após as explicações da organização foi dada a largada, a mais emocionante da minha vida, as pessoas na rua aplaudiam o comboio de corredores e os moradores saiam às janelas para ver a trupe correndo em direção às montanhas.

O primeiro trecho da corrida, cerca de 11 km, foi do centro de Passa Quatro (891m de altitude) até o primeiro posto de controle no Refúgio Serra Fina (1.500m), inciando a corrida nas ruas de paralelepípedo, em direção a zona rural, onde o maior trecho foi em estrada de terra com uma boa elevação. Iniciei correndo devagar, poupando energia nas subidas, o clima ameno era bom pra correr e após os primeiros quilômetros começou a espalhar bem os competidores, em alguns trechos cheguei a ficar sozinho na estrada.

Primeiro trecho da corrida pelo estradão de terra

Nas subidas poupava energia e aproveitava para um selfie

Atingi o primeiro posto de controle no Refúgio Serra Fina após 1 hora e 40 minutos de corrida pelo estradão de terra. Ali me hidratei, tomei um gel de carbo, ajustei os bastões de trekking que estavam presos na mochila e vesti o capacete que era obrigatório a partir daquele ponto.

1º Posto de Controle - Refúgio Serra Fina

O trecho seguinte da corrida começava o trekking propriamente dito, subida forte de montanha, ambiente que me dou melhor e meu habitat natural. O trajeto inicia-se em uma trilha exclusiva do Refúgio Serra Fina em direção ao Capim Amarelo, trilha essa diferente da que percorri na travessia feita semanas antes.

Extremamente técnica a subida era um tanto quanto difícil, muita lama e trecho íngremes em mata fechada tornava a primeira parte do percurso na montanha desafiador, comecei a desenvolver um bom ritmo e a ultrapassar uma grande parte dos competidores. Cerca de uma hora após deixar o primeiro posto de controle passei pelo primeiro ponto de água, bebi o resto da minha maltodextrina que estava na garrafa de 500ml e a enchi preparando uma dose de isotônico.

um dos primeiros contatos com a beleza da Serra Fina

Continuei a subida e quando sai da mata fechada pude sentir o sol tocar meu rosto e fui brindado com toda a beleza da Serra Fina, as nuvens abaixo dos competidores, uma linha de corredores pelas cristas das montanhas acima e abaixo de mim  com suas camisetas laranjas e amarelas tornava a paisagem mais que especial. Com umas 3 horas e meia de prova encontrei a Juliana sentada numa pedra descansando, parei com ela, dividi meu isotônico e continuamos a subida do Capim Amarelo juntos. Subida técnica, com alguns trechos expostos e sendo necessário o auxílio de cordas e/ou escalaminhar um pouco, o que causava um certo congestionamento de competidores, aliás nesses pontos aproveitei para ganhar umas posições, enquanto a fila para usar a corda aumentava ia no trepa pedra.

O mar de nuvens e o trajeto da corrida pelas cristas das montanhas

Trecho técnico na subida do Capim Amarelo com auxílio de cordas

Após 4 horas e 25 minutos da largada chegamos no 2º Posto de Controle, pouco antes do cume do Capim Amarelo (2439m), neste ponto os trajetos do Short e do Half se separava, à direita em direção ao cume do Capim Amarelo e posteriormente à Pedra da Mina iam os corredores da camiseta amarela, à esquerda em Direção ao Tijuco Preto iam os competidores da camiseta laranja. Seguimos à esquerda.

Um dos pontos mais altos da corrida próximo ao PC do Capim Amarelo

O caminho que até agora era de subidas começava com descidas em direção ao Tijuco Preto. Trecho lindo, caminhamos pelas cristas das montanhas, com o sol nos aquecendo, em alguns trechos menos acidentados era possível correr um pouco. Conhecemos dois amigos,  o Claudio e a Debora, dois maratonistas de São Paulo, e continuamos a cruzar com eles por um bom trecho.

Juliana no trecho Capim Amarelo - Tijuco Preto

Paramos para comer com 5 horas e pouco de prova, carregava comigo uma esfiha de frango que comprei na estrada no dia anterior, aquela foi a mais saborosa esfiha que já comi, devido às circunstâncias do “almoço”, uns raros minutos de descanso e seguimos na corrida, descendo por um trecho extremamente técnico rumo ao fundo de um vale entre o Capim Amarelo e o Tijuco Preto. Nesse ponto a Juliana começou a se distanciar de mim novamente, difícil acompanhá-la (o Junior então impossível, não o via desde a largada).

A exuberante Serra Fina faz dessa corrida especial

Segui meu caminho, agora sozinho, subindo um trecho cheio de lama, e pontos impossíveis de subir sem o auxílio das cordas ali instaladas, em direção ao Tijuco Preto, chegando ao 3º Posto de Controle (2.320m de altitude) com o cronômetro marcando 6 horas e 4 minutos de prova. O fiscal do posto informou que a partir daquele ponto não haveria mais subidas significativas no trajeto e em cerca de 2 km teria um ponto de água.

 

Próximo ao PC do Tijuco Preto

Sabia que estava entrando na parte final da prova e tentei acelerar o ritmo, a descida era difícil, trechos de mata fechada, bambuzais e e descidas bem íngremes, estava relativamente rápido e ultrapassei outros competidores, já podia ouvir de longe o apito da maria fumaça de Passa Quatro.

Vista do Tijuco Preto

Atingi o 4º Posto de Controle, na Casa de Pedra, decorridos 7 horas e 20 minutos de prova, me hidratei, comi algo e pouco a pouco foram chegando outros competidores no posto de controle. Sai antes de todos e fui informado pelo fiscal que até agora tinha percorrido 20km e haveria em torno de 10 até o final da prova, sendo todo o trecho até a cidade em estrada de terra.

Último ponto com vista aberta na corrida

Entrei nessa fase final alternando trechos de corrida com caminhada, nesse ponto comecei a ser ultrapassado por alguns corredores que deixei para trás na montanha que eram mais rápidos que eu nesse tipo de terreno.

A cada passo ficava mais perto da linha de chegada, o sol ia se pondo no horizonte e eu já tinha a cidade no meu campo de visão, começava a escurecer e meu corpo já cansado ia buscando forças para completar os últimos quilômetros desta corrida insana. A estrada de terra me levou para perto da cidade e faltando cerca de 3 km para o final puxei o ar com mais força e comecei a correr num ritmo mais forte, já sob o cair da noite ultrapassei um grupo de 3 competidores e cheguei perto da zona urbana da cidade, estava quase lá.

O dia chegando fim junto com a corrida

Atravessei a rodovia que divide a zona rural da cidade e entrei em Passa Quatro triunfante, corri o mais rápido que meu corpo permitia, ia seguindo as setas colocadas nos postes indicando o caminho, dividindo as ruas e as calçadas com os carros e pedestres, após dobrar a última esquina vi ao fundo da rua a linha de chegada.

Corri, corri buscando forças sabe-se lá onde, em busca da linha de chegada, o quanto mais perto eu chegava naus rápido eu corria, ouvir as pessoas gritando e me aplaudindo me arrepiou inteiro, eu sozinho naquela rua correndo em direção ao que para mim era a glória, completar essa prova de extrema dificuldade era um sonho e cruzei a linha de chegada 8 horas e 45 minutos depois da largada, tomado pela alegria e emocionado, por pouco não escorreram lágrimas de meus olhos (acho que elas secaram no sprint final), recebi minha medalha de finisher. Estava muito feliz por ter completado a prova em um tempo muito bom, ter corrido os cerca de 30 km da prova duríssima foi sensacional e não conseguia me conter (o circuito foi modificado, reduziu-se os 40km iniciais e aumentou a dificuldade técnica e elevação da prova).

Finisher!!! 9º Colocado Categoria Senior B Masculino

Pausa para fotos com a medalha e para comemorar, descobri que a Juliana foi a segunda colocada na Categoria Senior B Feminino, o Junior foi o grande Campeão do dia, 1º lugar geral no Short Mision e para minha surpresa eu fui o 9º colocado na Categoria Senior B Masculino e 62º colocado Geral, num total de 116 competidores no Short Mision.

Melhor medalha ever!!

Um resultado inimaginável, terminei à frente de maratonistas, corredores com mais experiência e preparo do que eu, isso me deixou muito mais feliz, nunca pensei em atingir resultados tão expressivos, o treinamento foi duro, acordei muitas vezes cedo para correr, me privei de algumas coisas para poder treinar, abdiquei de algumas reuniões em botecos com amigos, mas o resultado valeu a pena. Não por chegar a frente de um bom número de pessoas, mas por competir e vencer meu maior adversário, eu mesmo! Fiquei extremamente orgulhos de saber que tenho pernas, pulmões e cabeça para enfrentar um desafio desse tamanho. Aliás o slogan da prova diz: “La Mision, onde chegar é ganhar!!”

 

Feliz com meu resultado e dos meus amigos fomos comemorar abastecidos de vinho, cerveja e pizza, merecidos! No dia seguinte, meu amigos foram para a cerimônia de premiação, gostaria de tê-los acompanhado, mas tive que voltar cedo para casa.

A lição que trago dessa prova é que chegar não é o mais importante e sim toda a jornada,  cada passo dado é como se fosse uma vida, e nela tudo pode acontecer, basta não desistirmos e nossos sonhos se tornam realidade.

Marcas da Corrida!

Apêndice Técnico:  Short Mission

Percurso

- Largada – 1º Posto de Controle (Refúgio Serra Fina):

  • Tempo: 1 hora 40 min
  • Distância total: 11km
  • Elevação inicial: 891 metros
  • Elevação final: 1500 metros

- 1º Posto de Controle (Refúgio Serra Fina) – 2º P.C. (Capim Amarelo):

  • Tempo: 4 horas 25 min
  • Distância total: -
  • Elevação inicial: 1500 metros
  • Elevação final: 2439 metros

- 2º P.C. (Capim Amarelo) – 3º P.C. (Tijuco Preto):

  • Tempo: 6 horas 04 min
  • Distância total: ~18 km
  • Elevação inicial: 2439 metros
  • Elevação final: 2320 metros

- 3º P.C. (Tijuco Preto) – 4º P.C. (Casa de Pedra):

  • Tempo total: 7 horas 20 min
  • Distância total: 20 km
  • Elevação inicial: 2320 metros
  • Elevação final: -

- 4º P.C. (Casa de Pedra) – Chegada:

  • Tempo total: 8 horas 45 min
  • Distância total: 30 km
  • Elevação inicial: -
  • Elevação final: 891 metros
  • Desnível acumulado total: 2015 metros
  • Colocação cat. Senior B: 9º
  • Colocação Geral: 62º

Não levei GPS para corrida, os dados relativos a distâncias e elevação foram colhidos por outros competidores ou informados pela organização. A única medição efetuada  por mim foi o tempo. O tempo final de 8h45 é o registrado no ranking oficial, da mesma forma as colocações. O ranking oficial pode ser conferido aqui.

Circuito Short Misión mapeado pela Juliana Garcia

Alimentação e Hidratação

  • 4 unidades de gel energético
  • 2 barras de proteína
  • 1 dose de Maltodextrina
  • 1 Pastilha de Isotônico
  • 4 Bananas passa
  • 3 Barras de cereal
  • 1 Esfiha de Frango
  • 4 sachês de mel
  • Água

Os equipamentos utilizados estão descritos no post Em busca de La Misión, aqui está listado somente o que consumi durante a prova.

Quem acompanhou o post sobre a Serra Fina viu eu reclamando do tênis utilizado naquela ocasião (Mizuno Waze Kazan) que não dava a mínima aderência em solo com barro e pedras. Adquiri um Salomon Speed Cross 3 e o utilizei pela primeira vez no Short Misión, foi perfeito, um tênis muito confortável, ideal para o tipo de terreno que enfrentei, as travas altas davam bom “grip” e escorreguei poucas vezes. Será o calçado oficial das próximas corridas de montanha.

Esclarecimentos Short Pro e Short Mision

A organização da prova cometeu um erro na demarcação do percurso e 21 atletas do Short Mision desviaram do percurso entrando no trajeto do Half Mision. De modo a não penalizar os atletas que seguiram outro trajeto que o por mim e a maioria dos atletas percorreu a direção do La Mision Brasil os rankeou e premiou em uma categoria nova, chamada de Short Pro. Todos os participantes receberam um e-mail da organização com um pedido formal de desculpas pelo ocorrido.

About mochilaecapacete

Mochila & Capacete é o blog pessoal do montanhista, motociclista e mochileiro Marcos Paulo L. Ferreira.
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