Dia 55: O Dia Final – C A S A ! ! ! (18/02/2013)

“Viajar deveria ser outro concerto, estar mais e andar menos, talvez até devesse instituir a profissão de viajante, só para gente de muita vocação, muito se engana quem julgar que seria trabalho de pequena responsabilidade, cada quilómetro não vale menos que um ano de vida.”

José Saramago – Viagem a Portugal

Após 55 dia maravilhosos a jornada “De Mochila e Capacete até onde o vento faz a curva” chegou ao seu fim, mas como nos 54 dias anteriores, o 55º dia foi intenso e perfeito.

Acordei em Puerto Iguazú/ARG ainda de madrugada, as 4h 30min da manhã eu e minha namorada já estávamos com a moto montada e em direção à fronteira Argentina x Brasil, passamos pelo posto fronteiriço argentino sem problemas e após após 52 dias e 14 mil quilômetros voltava para minha terra amada.

Paramos para uma rápida sessão de fotos na Ponte Trancredo Neves, que passa sobre o rio Iguaçú e liga o Brasil à Argentina e, então, seguimos rumo ao aeroporto de Foz do Iguaçú, onde cheguei as 5 da manhã e me despedi de  Laila, que pegou um voo às 6 da manhã para São Paulo. Eu como não tinha muita pressa, resolvi enfrentar com o Panzer os mil quilômetros que me separava de casa.

Parei num posto de gasolina, abasteci, calibrei os pneus, limpei e lubrifiquei a corrente da moto e parti em direção a minha casa às 6 da manhã.

Rodar no Brasil novamente foi muito especial, um misto de tristeza, por ser o último dia dos melhores dias da minha vida, com a alegria de voltar para o meu lugar ao lado dos que amo.

Seguindo o meu caminho fiz uma parada em Maringá/PR, para rever os queridos amigos Mario e Marta, eram os primeiros amigos brasileiros que abraçava em nossa pátria.

Em Londrina encontrei uma outra companheira que tinha rodado comigo somente de Palhoça/SC até Pelotas/RS, no 2º dia de viagem: a Chuva, que me acompanhou até a entrada da rodovia Castelo Branco no Estado de São Paulo. Durante todo os 54 dias de viagem só pilotei com chuva intensa nesse trecho no sul do Brasil, verdade que peguei uma chuva forte aos redores de Montevidéu, porém não foi mais que uma hora debaixo dela,  da mesma forma foi a garoa entre Corrientes/ARG e Puerto Iguazú, que não chegou a molhar nem o meu rosto.

Já no Estado de São Paulo o tráfego era mais intenso e quanto mais perto da capital chegava pior ficava, um situação totalmente “nova” para mim.

Conforme os quilômetros passavam, uma retrospectiva desses 55 dias tomava lugar em minha mente. Lembrava de cada fronteira, de cada pessoa que cruzei na estrada, de chegar ao fim do mundo, das despedidas que tive, dos reencontros que fiz. Senti falta do vento patagônico, do rípio e do frio e de ter chegado no fim do mundo, lá onde o vento faz a curva. Lembrei dos dias memoráveis em Torres del Paine e de ter cruzado o Paso John Gardner e ter visto ali um inesquecível nascer do sol. Vi cada geleira e vulcão novamente. Senti o abraço de cada amigo que deixei para trás e sabia que de uma forma ou de outra eles estavam ali comigo.

Percorrer esses últimos mil quilômetros sozinho foi muito especial e tinha que ser assim, uma reflexão sobre todas as alegrias, medos, inseguranças e momentos eufóricos.

Já no começo da noite chegava aos arredores da Capital Paulista e ela me recebia com seu coquetel de boas vindas: chuva e congestionamento. Foi como uma terapia de choque, me dizendo para voltar a minha realidade.

Após enfrentar o congestionamento monstro em São Paulo cheguei em casa às 21 horas, e fui recepcionado por minha mãe, irmão e amigos! Abraçá-los foi mais que especial, foi a certeza de que os melhores 55 dias da minha vida chegaram ao fim.

Rodei ao total 15.104 km com minha moto, percorri 131 km de trilhas em Torres del Paine e ali acampei em 7 lugares diferentes, atravessei 9 fronteiras, peguei 3 balsas, dormi em 22 cidades diferentes, fiz 2 revisões na moto e sobretudo realizei 1 sonho: ir com minha Mochila e meu Capacete até onde o vento faz a curva.

Tenho muito que agradecer a todos que acompanharam e me incentivaram nesta jornada, não vou citar nomes aqui, vocês que me ajudaram daqui do Brasil ou daí do Chile e Argentina sabem o quanto sou gratos a vocês. Porém tenho que agradecer a duas pessoas em especial, pessoas que fizeram parte dessa jornada e sem elas não seria possível realizar tudo isso:

- Laila, minha grande parceira, obrigado por estar ao meu lado cada quilômetro que estivemos juntos, foi muito especial estar com você no Brasil, Uruguai, Chile e Argentina, não preciso aqui expressar o que sinto por você, pois você sabe, mas deixo aqui o meu muito obrigado, sem você eu não teria realizado esse sonho.

- Shane, you were the best partner ever, I couldn’t have done without you, drive together until the End of the World was amazing, and come back to Torres del Paine and beat the nature was badass! Thank you my friend!

Parafraseando José Saramago, posso afirmar que “cada quilómetro não vale menos que um ano de vida”, e graças à Deus eu vivi em 55 dias mais de 15 mil anos de vida.

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Mochila & Capacete é o blog pessoal do montanhista, motociclista e mochileiro Marcos Paulo L. Ferreira.
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